sexta-feira, 10 de maio de 2013
BURGUESINHA: UM TANTO DE DOENÇA MENTAL A PRETEXTO DE CRÍTICA SOCIAL
Até que ponto uma produção da cultura popular, aparentemente inspirada e inteligente, pode ser veículo de expressão de uma doença mental? Se a pergunta for cabível, quais são os mecanismos psicológicos pelos quais a doença mental se transmuta, sorrateiramente, em produção “poética” de crítica social.
Para tentar iniciar um primeiro entendimento da questão, tomo como objeto a composição intitulada “Burguesinha” de autoria e cantada pelo autointitulado “Seu Jorge”. Recorro, parcialmente, à tradição psicanalítica na análise.
O autor, saudado como grande intelectual popular pelos comunicadores “sensíveis às questões sociais”, busca satirizar a vida banal de uma jovem “burguesinha”:
“Vai no cabeleireiro
No esteticista
Malha o dia inteiro
Pinta de artista
Saca dinheiro
Vai de motorista
Com seu carro esporte
Vai zoar na pista
Final de semana
Na casa de praia
Só gastando grana
Na maior gandaia
Vai pra balada
Dança bate estaca
Com a sua tribo
Até de madrugada”
A garota, como se vê, é apresentada como possuidora de uma existência absolutamente fútil, sem sentido e desprezível. Tudo o que faz é ironizado: cabeleireiro, esteticista, malhação, dinheiro, motorista, carro esporte ... Chega a ser irritante o quanto essa criatura é desprezível.
Contudo, o sensível poeta, ao que parece, não percebeu que o que a personagem rotulada faz é exatamente o mesmo que todas as jovens gostariam de fazer... se pudessem. Senão, vejamos. Qual garota saudável não gosta de ficar bonita (cabeleireiro, esteticista, academia...)? Qual garota normal não gosta de conforto (carro, casa de praia, dinheiro pra gastar...)?Qual a garota feliz que não gosta de diversão (baladas, amizades, passeios). Neste último aspecto, o que difere as jovens não é sua condição financeira, mas sua vinculação aos valores conservadores. Portanto, não é verdade que a rica, burguesinha na rotulação do autor, prefira gandaia e a pobre prefira as festas da igreja. Ou vamos agora esquecer de onde veio e o que se faz nos bailes “funks”? Há, também, um preconceito contra os jovens abastados. Como se só se prestassem às futilidades e diversões, quando, na realidade, a imensa maioria estuda e trabalha.
Assim, com base em lógica elementar, pode-se afirmar que o que o autor não suporta e tenta atingir com sua ironia não é o fato de que a “burguesinha” goste de levar uma vida plena de “futilidades”, vez que esse mesmo desejo é disseminado por todas as classes sociais, mas o fato de que a “burguesinha”, por poder, faz o que as demais desejam. O que maltrata a sensibilidade de nosso poeta é o fato de que há pessoas que alcançam o que desejam e podem levar a vida que querem, seja por mérito pessoal, seja por mérito familiar.
Há algo de ressentido aí, como se o autor, ele próprio, houvesse tido, provavelmente na infância, desejos frustrados profundamente marcantes que não foram elaborados.
Ao longo do desenvolvimento, deparamos com uma infinidade de frustrações e, geralmente, as pessoas superam essas angústias seguindo pela vida ainda mais fortes e preparadas para novos enfrentamentos. Certas pessoas, contudo, ou por terem recebido uma dose realmente insuportável de frustrações, ou por terem sua sensibilidade aumentada, não conseguem superar o estado de carência infantil, seguindo pela vida marcados por um núcleo íntimo de insegurança.
Essa triste realidade subjetiva pode, eventualmente, causar inveja daquelas pessoas que aprenderam a gostar da vida que tem e de serem o que são, apesar do passado difícil.
E aqui podemos entender melhor a motivação do autor. Sabemos ser a inveja um sentimento humilhante para quem o experimenta. A pessoa consciente de sua inveja sente-se mal, inferior, negativa e envergonhada. Quando esse sentimento é muito intenso, pode ocorrer aquilo que Freud denominou de “repressão”: expulsão para o inconsciente de um sentimento insuportável pela consciência. Tivesse o autor procedido somente a repressão, a coisa ficaria somente no âmbito de sua intimidade. Contudo, por outras complicações egóicas, nosso valente guerreiro houve de proceder, em complemento, o mecanismo de defesa do ego chamado por Freud de “racionalização”. Trata-se, a racionalização, de um discurso justificador encobridor do elemento reprimido, no caso, a inveja. Nada melhor que um pretenso senso de “justiça social”, sacanear os ricos – tão bobos e estúpidos – para encobrir a motivação invejosa de base. Esse tipo de discurso tem, ainda, o reforço do elogio da “mídia consciente” levando todo o processo de racionalização a uma satisfação do ego, fazendo com que o autor se sinta realmente alguém especial, quem sabe um moderno justiceiro da poesia, quando, na realidade, sua poesia-sátira foi produto do lado mais obscuro de sua mente ressentida.
Edson Moreira
terça-feira, 16 de abril de 2013
OS EMISSÁRIOS DAS TREVAS ENTREGAM MAIS UMA ENCOMENDA
Os emissários das trevas entregaram mais uma encomenda. O terrorismo é, dos crimes, o mais abjeto, o mais torpe e contra ele não se pode ter meios termos. É pavoroso pensar que existem "intelectuais" e "jornalistas" que possam sequer ver no terrorismo uma sombra de legitimidade.Em Boston, as pessoas, gente comum, saíram para correr ou passear em uma tarde de feriado. Muitas voltarão para suas casas sem um braço ou uma perna. Algumas não voltarão mais para suas casas, não voltarão mais para seus pais, seus filhos, companheiro, companheira, amigos, vizinhos. Foram bloqueadas da vida entre uma passada e outra, entre um olhar e outro, entre um sorriso e outro! É para essa reflexão que publico abaixo o magnífico texto do Reinaldo Azevedo.
O terrorismo transforma o humano em coisa para que possa matá-lo sem remorso. Ou: Considerações sobre uma foto.
As tragédias sempre têm uma foto, uma imagem, que viram uma espécie de emblema. Para mim, a do atentado ocorrido em Boston, nesta segunda, é esta, de John Tlumacki (The Boston Globe/Getty Images).
Roland
Barthes escreveu um ensaio sobre fotografia no qual afirma que as imagens têm o
que ele chamava “puncta” (plural da palavra latina “punctum”). São os “pontos”,
não necessariamente centrais, que atraem o nosso olhar. Um dado muitas vezes
periférico da imagem acaba dizendo mais sobre o evento retratado do que as
evidências escancaradas.
Voltemos
à foto. Chama a atenção, de imediato, a composição da cena em vermelho e negro.
Parte desse vermelho é o sangue das vítimas, também da mulher retratada. Nota-se
que um naco foi arrancado de sua perna, logo abaixo do joelho. As partes
visíveis de seu corpo estão lanhadas; a blusa, rasgada. Os artefatos explosivos
certamente continham pregos — ou algo semelhante — para ferir também os que
estivessem a uma distância razoável da explosão. No canto superior esquerdo, há
uma pessoa deitada.
Tudo
isso é constatável à primeira vista. Mas a síntese da tragédia não está nessa
composição horrível. Há coisas ainda mais terríveis — que são, estas sim, a
síntese da miséria moral terrorista.
Seus
olhos miram o nada. Seus olhos estão voltados para a incompreensão. Seus olhos
são a expressão da catatonia. Ela se confronta com a ausência de sentido. Eu me
arriscaria a dizer que, no momento desse flagrante, essa pobre mulher não sentia
dor, tristeza, preocupação, ódio, melancolia… Sua alma a abandonara por um
instante.
Em
estado de choque, podemos ficar literalmente anestesiados — a dor física só
chega depois, quando recobramos algum domínio sobre o nosso corpo. O sofrimento
moral, por sua vez, requer uma articulação com a linguagem e com a consciência
de quem nós somos. Só temos a chance de nos consolar se encontramos o
repertório com que expressar a nossa dor. Sem isso, sofremos, sim, mas quase
como bichos.
A
vida, no entanto, insiste. E aí o meu olhar se desloca para a sua mão direita
(a esquerda, presume-se, fala a mesma linguagem). Elas estão pregadas no chão.
Ela não quer deitar. Como o animal acuado, mantém-se ereta, dentro do possível,
porque, mesmo sem entender o que se passa, mesmo sem saber por que coisa foi
colhida, não quer morrer. Vai até o limite de sua força.
No
pé deste post, publico outras imagens da tragédia. Há, até agora, apenas
especulações a respeito. Ninguém reivindicou a autoria do atentado. Ninguém
sabe se há motivação política. Isso importa? Importa, sim, para o futuro e para
o tratamento policial que se dará em questão. No que diz respeito à essência do
ato, não faz diferença se os autores falam em nome de uma causa ou apenas se
consideram injustiçados pelo mundo e querem se vingar.
Todos
os crimes são, afinal de contas, crimes, mas é claro que se pode fazer uma
hierarquia na escala da abjeção. O terrorismo é o mais asqueroso deles, pouco
importam a sua natureza, a sua causa ou as suas justificativas. Não obstante,
nestes dias, há intelectuais que flertam abertamente com suas possíveis
virtudes; que veem em atos dessa natureza uma expressão, ainda que um tanto
distorcida, do humanismo. É o caso do intelectual marxista esloveno Slavoj
Zizek, que sai fazendo a sua cantilena maldita mundo afora, encontrando eco,
inclusive, em universidades dos EUA, que já passaram pelo 11 de Setembro.
No
Brasil, Zizek e sua tese ganharam uma resenha elogiosa assinada pelo professor
da USP Vladimir Safatle. O texto foi
publicado no Estadão — sim, no Estadão! — no dia 11 de janeiro de 2009. E eu
jamais deixarei que vocês se esqueçam disso, que o Estadão se esqueça disso e
que o próprio Safatle se esqueça disso. A cada vez que eu vir uma foto como a
daquela mulher e as que se seguem abaixo, farei com que vocês se lembrem disso,
com que o Estadão se lembre disso e com que Safatle se lembre disso. É bom
notar: terroristas costumam armar suas bombas em aparelhos clandestinos,
fétidos, escondidos de toda gente. Intelectuais que justificam seus crimes
costumam estar nas universidades, nas bibliotecas e escrevendo em jornais.
O
terrorismo desumaniza o outro para que possa matá-lo sem remorso — mais ou
menos como o professor Satafle, em certo artigo, desumanizou o feto,
chamando-se de “parasita”, para tentar convencer o seu leitor que legalizar o
aborto é uma postura correta e moralmente aceitável.
As
vítimas do terror, como evidencia aquela foto, são transformadas em “coisas”.
Por alguns instantes, não sentem nada, nem dor nem paixões. Grudam, como
animais acuados, os membros no chão, num último esforço para que a vida não as
abandone.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
CASAMENTO GAY, MOVIMENTO GAY E HOMOSSEXUALIDADE
Talvez pelo fato de ser eu
psicólogo e psicoterapeuta, alunos e amigos me perguntam frequentemente sobre
questões ligadas à homossexualidade. Ultimamente, os questionamentos aumentaram
muito em razão do deputado Feliciano, pastor evangélico, ter sido eleito
(eleição de lideranças) para a presidência da comissão dos direitos humanos da
Câmara dos Deputados.
A questão é complexa e
multifacetada; por isso querer tratá-la em bloco único, mais confunde que esclarece.
Tendo em conta essa variedade, vou tratar do assunto em três blocos distintos:
O problema do casamento gay, o
problema do movimento gay e a questão da homossexualidade.
1. O
CASAMENTO GAY. Para se avaliar o casamento gay, deve-se levar em conta o que representa
o casamento em nossa sociedade e cultura. É chavão, dizer que “a família é a
célula mater da sociedade”. Mas se olharmos em mais detalhes, vamos ver que a
afirmação se amplia de sentidos e se eleva acima dos chavões. Se pararmos para
pensar um pouquinho, vamos perceber que as pessoas nascem e crescem no seio de uma família. Pode
ser pobre, rica ou remediada. A não ser em situações de absoluta inépcia dos
pais, ou sua falta, é que as crianças são acolhidas em instituições sociais. Mas
por que é assim? Por que as crianças não são criadas por aparelhos estatais em
vez da família? A resposta é: porque é melhor para a criança. É na família que
a criança primeiro desenvolve habilidades e forma vínculos afetivos estáveis.
Uma instituição até poderia atender à primeira
das funções, mas como poderiam
cuidadores, em revezamento permanente, em uma instituição criar uma estabilidade emocional tal que produzisse a estabilização da função materna ou paterna? A relação
pais/filhos é de uma natureza insubstituível. Os pais olham para o filho como
sendo sua continuidade e os filhos olham para os pais como fonte e origem e é
esse mútuo olhar que cria o vínculo de cumplicidade, aceitação, proteção e
fusão. É por razões dessa natureza que a família é o fundamento próprio da
sociedade. Noutras palavras, a sociedade pode subsistir a uma família
modificada, mas jamais resistiria à extinção da família.
Por outro lado,
sabe-se que a família começa com um casamento. O casamento tem uma estrutura,
uma função e uma história. A estrutura é a união de um homem a uma mulher. A
função é a formação de uma família. As pessoas não se casam para praticar o
sexo. As pessoas se casam para formar uma família. O sexo é o meio de consumar
a formação da família com a geração dos filhos, mas não a finalidade do casamento.
Isso é assim mesmo que a pessoa não tenha clara consciência no momento do
casamento. Ademais, sabe-se, nos dias de hoje, que há muita liberdade para a prática sexual fora
do casamento. Ao mesmo tempo, há casamentos em que o sexo se esgotou, mas a
família, não. Provisoriamente, vou dizer assim: o casamento entra em pauta
quando o relacionamento transcende o sexual e foca em filhos e família. Essa
consideração, por si só, já dificulta muito o estabelecimento de um casamento
gay.
Disse acima que
o casamento tem uma história. O casamento surgiu quando o simples acasalamento,
presente no mundo animal, se tornou insuficiente para o anseio espiritual do
ser humano. Uma relação de unidade profunda entre homem e mulher, com vistas à
formação de uma família, passou a ser preponderante. Na cultura ocidental
judaico-cristã, o casamento consagrou o modelo de família que até hoje é
dominante, com algumas poucas alterações ao longo do tempo. Entre os hebreus, ainda na Palestina, o casamento era poligâmico para o homem, mas, com o
cristianismo, passou a ser monogâmico. Sempre ordinariamente indissolúvel,
hoje, é possível o divórcio e a convolação de outro casamento.
Apesar dessa
última mudança (adoção do divórcio e uniões informais), o casamento manteve
intacta sua prerrogativa de ser o fato gerador da família e, por consequência, o pilar central
da sociedade. Daí sua importância devastadora e a razão da preocupação de quem
se preocupa com os rumos de nossa civilização.
NÃO AO CASAMENTO
GAY. Por que? Logo antes dissemos ser a nossa civilização baseada na cultura
judaico-cristã. Pois bem, o casamento gay abre um claro e profundo rasgo nos valores
dessa cultura. Não precisa ser um expert em exegese bíblica para, do Livro
Sagrado, retirar várias obstruções a uma pretensão dessa ordem. Se fosse apenas
uma perturbação aos valores judaico-cristãos ainda assim seria perniciosa sua
adoção. Mas o precedente de um casamento gay afeta toda a estrutura de nossa
sociedade. Afinal, por que não poderia, depois, voltarmos aos casamentos
poligâmicos? Ou casamento entre pai e filha, ou mãe e filho? Ou entre irmãos?
E, num horizonte mais distante, mas não impossível, o casamento entre um adulto
e uma criança. Por essas razões, pelo risco do desmantelamento de toda a
civilização judaico-cristã ocidental é que o casamento gay deve ser considerado
um erro fatal de nossa sociedade. Nunca é demais dizer que quando se destrói a
cultura de uma civilização, ela se torna presa fácil de uma outra mais forte e
mais convicta de seus valores. A expansão muçulmana está aí para provar o que
digo.
2. O
MOVIMENTO GAY. Esse movimento consiste na organização de grupos de ativistas, que a pretexto de
combate ao preconceito e à homofobia (em artigo futuro, vou esclarecer e demonstrar
que homofobia é uma doença psiquiátrica grave, razão pela qual não se deve xingar
alguém de homofóbico, sem que haja uma observação acurada dos sinais e sintomas
da doença). Contudo, esses grupos, de clara vinculação esquerdista, na verdade,
não tem a preocupação com bem estar dos homossexuais como meta, mas como
pretexto. Provo isso demonstrando que seus líderes não movem a mais mínima
crítica a tiranias esquerdistas que maltratam, torturam e excluem os homossexuais, como ocorre
com CUBA, além de defenderem e apoiarem um tirano que, simplesmente, manda
matar os homossexuais, como AHMADNEJAD do Irã. É sintomático que contra esses
países, cujas práticas são realmente homofóbicas, os movimentos gays não abrem
o bico. Se procurarem, você os verão a criticar Europa e Estados Unidos (onde
os homossexuais são bem tratados), mas nunca os verão a fazer moções contra
CUBA ou IRÃ, entre outras ditaduras. É a verdade cristalina: os movimentos gays (que são controlados
em muitos casos por não gays - as Martas da vida) buscam o poder para, em formação com os
esquerdistas e sob sua direção, instaurar uma forma de socialismo em nossa Nação. Mal sabem eles o que os espera, caso ocorra uma tal transformação revolucionária.
3. HOMOSSEXUALIDADE.
A homossexualidade ainda não tem esclarecidas suas causas. Da mesma forma que a
heterossexualidade. São decisões (no sentido do reconhecimento e aceitação de um desejo) que ocorrem em um momento muito primitivo da vida Mas, independente de suas causas, a homossexualidade é um
fato. E com esse fato, o homossexual pode reprimir e buscar tratamento (caso
acredite que isso possa ajudá-lo – é seu direito!) ou pode assumir e buscar ser
feliz com sua escolha. Contudo, penso que ninguém tem o direito de criticar ou
condenar um homossexual por buscar um companheiro. É fácil, para quem é
heterossexual, que não precisa renunciar à vida amorosa e nem enfrentar a
solidão, exigir, inflamado, que o homossexual deixe de ser homossexual e se
recolha à solidão. É injusto! É desumano! Por essa razão sou completamente favorável a que a pessoa seja respeitada em sua orientação, seja homo ou heterossexual (ad astra per angusta).
sábado, 13 de abril de 2013
A INDÚSTRIA DO OPRIMIDO
Não tenho todos os dados objetivos, mas acredito que em nenhuma outra época o Brasil congregou tanta gente, tantas organizações, tantos conceitos em torno de uma suposta defesa dos “oprimidos” e suas variantes: “excluídos”, “minorias” etc etc. Há até um ministério para cuidar desse assunto.
Assim, entre nós se criaram os chamados “campos sociais de lutas”: luta do movimento gay; luta do movimento pela consciência (oops!) negra; luta pela libertação (oops!) da mulher; luta pela proteção da infância; luta pelos sem-terra; luta pelos sem-teto; luta pelos índios; luta pelos quilombolas; luta contra o tabagismo; luta pela liberação da maconha etc etc. É uma lista sem fim.
É preciso ressaltar que todo movimento que luta por alguma coisa, na prática ele luta contra uma outra coisa. E o grande “inimigo” desses movimentos deverá ficar sugerido ao final deste artigo. Antes, porém, deve-se ter em mente que esses grupos se organizaram em ONGs, através das quais captam recursos e se tornam “donas” daquela minoria. É a essa relação OPRIMIDO – DINHEIRO, que chamo de “INDÚSTRIA DO OPRIMIDO” que vou tratar nesse artigo. É tanto dinheiro, poder e prestígio arrecadado, que essa INDÚSTRIA DO OPRIMIDO já se tornou o meio de vida de milhares de pessoas. É claro que esses BARÕES DA BONDADE FINGIDA não querem ficar sem seus polpudos rendimentos e prestígio. A consequência é buscarem acentuar cada vez mais a percepção de injustiça para perpetuarem sua “luta” e, com ela, seus rendimentos.
Vou dar um exemplo para ilustrar o que foi dito. Veja a chamada luta antirracismo. As ONGs “donas” dessa causa são incontáveis, algumas delas milionárias, mas quais mesmos são os resultados alcançados?
1- Raça e consciência negras. O termo “raça” foi aplicado pelos escravagistas que precisavam justificar sua atividade. Havendo “raças”, ficaria patente a diferença essencial entre o negro e o branco. Ou seja, fortalecer o termo raça é fortalecer o preconceito. É ratificar o preceito escravagista. Pois bem, intelectuais percebendo o risco do uso do termo raça, passaram a condená-lo como expressão do racismo, a partir dos anos 1960 (pesquisem moçada). Com o início dos atuais movimentos de minorias (meados da década de 80), a primeira medida estratégica foi restabelecer o termo “raça”, e aí restaurou-se a raça negra, a raça branca, a raça amarela etc. Isso foi bom para o negro? Sentir que pertence a uma outra raça? Como ocorre com os cães? Claro que não! Mas foi bom para os LORDs que estimularam essa anomalia. Na verdade, o que se queria não era a harmonia, mas a guerra social. Conseguirão? O que dizer sobre “consciência ou orgulho negro”? Por diferenciação, então existiria uma consciência branca? E o orgulho branco? É tão estúpido considerar a pessoa pela cor da pele que esse tipo de afirmação beira ao cômico, não fosse trágico. Como posso ter orgulho de ser negro? Ou branco? É o mesmo que ter orgulho de ter o pé grande ou o nariz pequeno. Penso que só devemos ter orgulho de ações e comportamentos. Nunca de uma fortuidade ao nascimento.
2 – Regime de cotas para negros nas universidades. Um negro entrar na universidade tendo média inferior à de um branco é mesmo um avanço? Absolutamente, não! Por dois bons motivos: primeiro, sedimenta na mente do negro que ele é incapaz de alcançar o desenvolvimento que o branco consegue. Portanto, é inferior! E não adianta dizer para ele que é merecedor dessa mãozinha, por reparação histórica. Intimamente, ninguém acredita nisso. O sujeito quer mesmo é vencer competindo de igual para igual! Segundo, cria uma situação de injustiça, afinal, o que um jovem branco fez para merecer ser passado para trás tendo melhores notas? Alguém pode argumentar: “ele não, mas seu tatataravô foi escravagista". É mentira. Na época da escravidão, poucos eram os senhores escravagistas; a grande maioria dos brancos era pobre, como ainda hoje é, e não possuía escravos. Alguns brancos sequer escravagistas foram, como os italianos e alemães que para cá vieram a partir do início do sec XX, quando já não havia escravidão no Brasil. A hipótese de “reparação histórica” é absolutamente estúpida e injusta.
Mutatus mutandi, o atraso que a chamada “luta antirracista” produziu e produz à melhoria da vida das pessoas de pele escura, também se aplica aos demais chamados “movimentos sociais de lutas”. Para ilustrar, como esses movimentos nada ajudam dou como exemplo as mulheres: na década de 1940, as mulheres ocupavam menos de 3% das vagas dos cursos superiores. Hoje, já são a maioria nas faculdades e universidades do Brasil. Sem cotas ou medidas legais extraordinárias. Somente o desejo de avançar e uma ação decidida podem construir, verdadeiramente, uma vida melhor. Qualquer artificialismo só atrapalha!
Afirmei no início que há um inimigo comum, contra o qual todos esses movimentos convergem sua hostilidade. É superficial supor que todo esse bom-mocismo vise apenas o enriquecimento desses “mercadores dos bons sentimentos”. O alvo, ainda que insconsciente para alguns, é a democracia representativa. E com ela, a liberdade. O movimento revolucionário nunca desistiu e nunca desistirá de instituir um estado onipresente, que controle a vida de todos. Tentou com nazismo, tentou com os vários populismos, tentou com o fascismo, tentou com o comunismo e agora tenta com os chamados “governos populares”. É o estado entrando na sua casa e determinando o que você pode ou não fazer. Já não há aí uma lei em tramitação que pune o pai por aplicar uma palmada no filho? Uma outra que coloca como obrigação “legal” o pai dar amor ao filho? (como se fosse possível resolver a vida afetiva das pessoas por imposição estatal). Esses santos do ativismo social são, na verdade, lobos em pele de cordeiro. “De nihilo nihil”.
domingo, 7 de abril de 2013
ASSIMETRIA E BOM-MOCISMO NO CASO DANIELA MERCURY
O Brasil já não surpreende. Assusta!
É tanta tentativa de parecer
bonzinho e engajado em causas “bacanas” (politicamente corretas) que o exagero
já começa a apresentar seu viés fascista. Há um
dito popular que afirma mais-ou-menos isto: “depois que o dragão põe a
cabeça para fora da caixa, é muito difícil voltar com ele para a dita caixa”. O
dragão aqui é a manipulação agressiva que grupos minoritários (porém bem
organizados e financiados) querem impor ao conjunto da sociedade.
Só a título de exemplo, eu
apresento o caso mais recente em que a cantora Daniela Mercury se declarou
homossexual e apresentou sua “esposa” em rede nacional. Esposa foi o termo
usado pela cantora. É uma verbalização meio retrô para quem se quer muito
moderninha, né. Mas Daniela Mercury ter uma “esposa” não é o foco deste artigo.
O foco aqui é outro, ou outros.
Primeiro, a cantora foi ao Fantástico
(Rede Globo, 08/04/12) e com ares de oprimido em guerra santa contra o preconceito declarou o quão árdua tem
sido sua luta. É uma tremenda mentira, pois se há um grupo que conta com amplo
apoio e defesa de ONGS, UNIVERSIDADES e IMPRENSA é o grupo dos ativistas gays.
Ativista gay é o cara mais paparicado da mídia. Nenhum jornalista, eu disse,
nenhum, faz a mais mínima censura ou crítica às escolhas homossexuais. É o
troço mais malicioso inventar um inimigo que não existe e fingir sofrer uma
opressão que não sofre. Concordo que o gay, em sua grande maioria, sofra um
grande e dramático conflito interior, mas isso nada tem a ver com opressão ou
coisa que o valha. Tem a ver com uma consciência acusatória e para isso só a
auto-aceitação genuína é remédio. O processo é interno e não externo.
Mas para não ficar só no
blá-blá-blá eu apresento as evidências.
Como se sabe, Daniela Mercury
estava meio esquecida da mídia. Eu não a via em televisão há tempos. Mas foi só
apresentar sua “esposa” midiática que apareceu em tudo quanto é jornal e
programa de televisão. Um sucesso total! Ora, afinal, se trata de uma mulher,
mãe de dois filhos, que assume para o Brasil inteiro sua, como diria, “conversão”
à homossexualidade. Estardalhaço total!
Mas pensem aí com seus botões: a também
cantora Ana Carolina, depois de um longo período homossexual, está em um
relacionamento com um homem. Vocês viram alguma vez, alguma televisão entrevistá-la
para falar de sua “luta para assumir-se HETEROSSEXUAL”? Nada, nadica de nada. O mesmo ocorreu há mais
tempo com a ZIZI POSSI. Como se sabe, essa excelente cantora também teve lá seu
período homossexual, tendo chegado a viver com a também cantora Angela Rô-Rô.
houve algum estardalhaço por sua conversão à HETEROSSEXUALIDADE? Nada, nem a
mais miserável referência.
Moral da história: tornar-se
homossexual é muito mais “heróico” e rende muito mais IBOPE que o seu
contrário. Há uma aura de admiração em quem se torna (ou declara) homossexual,
enquanto retornar aos trilhos da heterossexualidade é coisa de gente babaca, conservadora.
É claro que isso é assimétrico e
imensamente burro. Embute-se aí a idéia de que as pessoas são boas ou más
conforme sua orientação sexual. Rematado ridículo, pois se sabe, por óbvio, que
há heterossexuais canalhas nas mesmas bases em que há também homossexuais
canalhas. A grandeza do caráter não pode ser vinculada a esse tipo de acidente.
Quando você, leitor, deparar com situações similares, treine sua inteligência
para não cair nesse engodo.
O perigo que se corre, que foi
declarado no início desse artigo, é o de que a consciência individual passe a
mimetizar as determinações dos grupos que têm vez e voz na mídia. É o retorno
dos métodos nazi-fascistas-comunistas de controlar a consciência humana! TODO
CUIDADO AQUI É POUCO. Orai e vigiai!
sábado, 6 de abril de 2013
DANILO GENTILI RESPONDE À ACUSAÇÃO DE RACISMO
Há em curso uma ditadura do "politicamente correto". É um tal de não poder chamar (mesmo sendo) o cara de gordo ("imagem visual alternativa"), de preto ("afrodescendente"), de puta ("profissionaldo sexo"), de anão ("imagem visual verticalmente prejudicada"), de maconheiro (dependente químico), de cachaceiro ("alcoolista") etc etc. É tanta restrição da linguagem para que todos pareçam bonzinhos e iguaizinhos que tinha que dar na burrice que vai abaixo. Felizmente, ainda há pessoas inteligentes e corajosas. Veja o caso em que se meteu (foi metido) o DANILO GENTILI: (gentileza do blog thelittlehappiness).
O humorista Danilo Gentili postou a seguinte piada no seu twitter: “King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”
A ONG Afrobras se posicionou contra: “Nos próximos dias devemos fazer uma carta de repúdio. Estamos avaliando ainda uma representação criminal”, diz José Vicente, presidente da ONG. “Isso foi indevido, inoportuno, de mau gosto e desrespeitoso. Desrespeitou todos os negros brasileiros e também a democracia. Democracia é você agir com responsabilidade” , avalia Vicente.
Alguns minutos após escrever seu primeiro “twitter” sobre King Kong, Gentili tentou se justificar no microblog: “Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?” (GENIAL) “Na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque é famoso. A cabeça de vocês é que têm preconceito. “
Mas, calma! Essa não foi a tal resposta genial que está no título, e sim ESTA:
“Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista, pois, assim como os criadores de cachorros, acredita que somos separados por raças. E se acredita nisso vai ter que confessar que uma raça é melhor ou pior que a outra, pois, se todas as raças são iguais, então a divisão por raça é estúpida e desnecessária. Pra que perder tempo separando algo se no fundo dá tudo no mesmo?
Quem propagou a ideia que “negro” é uma raça foram os escravagistas. Eles usaram isso como desculpa para vender os pretos como escravos: “Podemos tratá-los como animais, afinal eles são de uma outra raça que não é a nossa. Eles são da raça negra”.
Então quando vejo um cara dizendo que tem orgulho de ser da raça negra, eu juro que nem me passa pela cabeça chamá-lo de macaco, mas sim de burro.
Falando em burro, cresci ouvindo que eu sou uma girafa. E também cresci chamando um dos meus melhores amigos de elefante. Já ouvi muita gente chamar loira caucasiana de burra, gay de v***** e ruivo de salsicha, que nada mais é do que ser chamado de restos de porco e boi misturados.
Mas se alguém chama um preto de macaco é crucificado. E isso pra mim não faz sentido. Qual o preconceito com o macaco? Imagina no zoológico como o macaco não deve se sentir triste quando ouve os outros animais comentando:
- O macaco é o pior de todos. Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos. Ser macaco é uma coisa terrível. Graças a Deus não somos macacos.
Prefiro ser chamado de macaco a ser chamado de girafa. Peça a um cientista que faça um teste de Q.I. com uma girafa e com um macaco. Veja quem tira a maior nota.
Quando queremos muito ofender e atacar alguém, por motivos desconhecidos, não xingamos diretamente a pessoa, e sim a mãe dela. Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?
Mas o que quero dizer é que na verdade não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é? Eu sou um ser humano da cor branca. O japonês da cor amarela. O índio da cor vermelha. O africano da cor preta. Se querem igualdade deveriam assumir o termo “preto” pois esse é o nome da cor. Não fica destoante isso: “Branco, Amarelo, Vermelho, Negro”?. O Darth Vader pra mim é negro. Mas o Bill Cosby, Richard Pryor e Eddie Murphy que inspiram meu trabalho, não. Mas se gostam tanto assim do termo negro, ok, eu uso, não vejo problemas. No fim das contas, é só uma palavra. E embora o dicionário seja um dos livros mais vendidos do mundo, penso que palavras não definem muitas coisas e sim atitudes.
Digo isso porque a patrulha do politicamente correto é tão imbecil e superficial que tenho absoluta certeza que serei censurado se um dia escutarem eu dizer: “E aí seu PRETO, senta aqui e toma uma comigo!”. Porém, se eu usar o tom correto e a postura certa ao dizer “Desculpe meu querido, mas já que é um afro-descendente, é melhor evitar sentar aqui. Mas eu arrumo uma outra mesa muito mais bonita pra você!” Sei que receberei elogios dessas mesmas pessoas; afinal eu usei os termos politicamente corretos e não a palavra “preto” ou “macaco”, que são palavras tão horríveis.
Os politicamente corretos acham que são como o Superman, o cara dotado de dons superiores, que vai defender os fracos, oprimidos e impotentes. E acredite: isso é racismo, pois transmite a ideia de superioridade que essas pessoas sentem de si em relação aos seus “defendidos”.
Agora peço que não sejam racistas comigo, por favor. Não é só porque eu sou branco que eu escravizei um preto. Eu juro que nunca fiz nada parecido com isso, nem mesmo em pensamento. Não tenham esse preconceito comigo. Na verdade, sou ítalo-descendente. Italianos não escravizaram africanos no Brasil Vieram pra cá e, assim como os pretos, trabalharam na lavoura. A diferença é que Escrava Isaura fez mais sucesso que Terra Nostra.
Ok. O que acabei de dizer foi uma piada de mau gosto porque eu não disse nela como os pretos sofreram mais que os italianos. Ok. Eu sei que os negros sofreram mais que qualquer raça no Brasil. Foram chicoteados. Torturados. Foi algo tão desumano que só um ser humano seria capaz de fazer igual. Brancos caçaram negros como animais. Mas também os compraram de outros negros. Sim. Ser dono de escravo nunca foi privilégio caucasiano, e sim da sociedade dominante. Na África, uma tribo vencedora escravizava a outra e as vendia para os brancos sujos.
Lembra que eu disse que era ítalo-descendente? Então. Os italianos podem nunca ter escravizados os pretos, mas os romanos escravizaram os judeus. E eles já se vingaram de mim com juros e correção monetária, pois já fui escravo durante anos de um carnê das Casas Bahia.
Se é engraçado piada de gay e gordo, por que não é a de preto? Porque foram escravos no passado hoje são café-com-leite no mundo do humor? É isso? Eu posso fazer a piada com gay só porque seus ancestrais nunca foram escravos? Pense bem, talvez o gay na infância também tenha sofrido abusos de alguém mais velho com o chicote.
Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo “negro” ou “afro-descendente” , tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar. Na minha cabeça, você será apenas preto e eu, branco, da mesma raça – a raça humana. E você nunca me verá por aí com uma camiseta escrita “100% humano”, pois não tenho orgulho nenhum de ser dessa raça que discute coisas idiotas de uma forma superficial e discrimina o próprio irmão.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
SOBRE SER MADURO OU APENAS UMA CRIANÇA BIRRENTA (A GRATIDÃO AOS PAIS)
A maturidade nos tempos recentes tem sido motivo de piada.
Seja porque quase ninguém a alcança, de fato, e aí só resta ridicularizar àqueles que se
apresentam mais maduros, por inveja mesmo; seja porque imaturos inseguros
buscam mimetizar uma maturidade que não têm e isso, é claro, por evidente
falsidade, se torna risível e merecedor de toda a sorte de piadas e
esculhambações.
Mas o quê é mesmo e como se identifica a maturidade?
De acordo com o que pude observar por experiência própria e
introvisão e também em razão das observações e relatos de amigos, alunos e
pacientes, a maturidade está intimamente ligada ao sentimento profundo de
gratidão.
Parece mesmo que à medida que a
pessoa vai amadurecendo, no mesmo passo, vai se tornando mais agradecida. Dos
pequenos favores às grandes ajudas, passando por apoios e até reprimendas e
desaprovações a pessoa vai extraindo um sentido benéfico dos relacionamentos
humanos. Não sei se ocorre aí uma relação de causa e efeito ou simples correlação,
mas há, sem dúvida, alguma conexão entre as experiências de maturidade e
gratidão. Vamos ver como isso ocorre, mais detalhadamente.
Entende-se que uma pessoa madura
tem uma visão mais realista da vida. Sabe ponderar as nuances dos vários
objetos, situações, pessoas e grupos. Isto é, não se apega a uma única
característica ou aspecto para avaliar o todo. Dessa forma, consegue ver um pouco
de beleza em um conjunto feio ou um pouco de feiúra em um conjunto bonito. Ora,
como se poderia conseguir fazer isso com um coração ingrato, ansioso por ver
somente o mais degradante no outro? É nesse sentido que a gratidão se torna uma
função psicológica fundamental para recolocar a pessoa na realidade, portanto,
uma função necessária à maturidade.
Vendo pelo lado invertido, não é
fato conhecido que as crianças e pessoas imaturas sejam mais egoístas e
ingratas? Observe um garoto de dez anos. Por mais que queira, sua gratidão é
ainda incipiente, quase um “modo social” aprendido com seus pais. Com o passar
do tempo, contudo, o garoto vai aprendendo o sentido mais profundo daquele seu gesto
superficial de gratidão e aí entra na rota da maturidade. Aprende que ser grato
é reconhecer que ninguém é autossuficiente. Todos nós recebemos de outros
aquilo que nos construiu e nos constrói. Veja, por exemplo, a gratidão aos pais,
que deve ser o protótipo de todas as demais. Os pais são aquelas figuras
nomeadas pelo Criador para nos apresentar a essa vida e esse mundo. Só por isso
já são merecedores de nossa gratidão. Mas os pais, no mais das vezes, se
entregam a essa tarefa, de corpo e alma, e dedicam ao filho o que têm de
melhor, convergem para o filho suas melhores aspirações e esforços e sofrem com
o filho suas dores existenciais. É claro, vão dizer alguns, que há pais
negligentes. Verdade! Contudo, ainda assim, eles fizeram pelo filho algo que o
filho não poderia ter feito, ele próprio: o pai o gerou!
Meu mestre Olavo de Carvalho diz
que um filho nunca deve falar mal ou fazer oposição aos pais. Ele acha que isso
dá um certo “azar”, que arruína o futuro do filho. De minha parte, acho que não
se deve falar mal ou fazer oposição aos pais pelo simples fato de que sendo
eles os primeiros modelos para nossa gratidão, uma vez rejeitados, nosso
coração se fecha, definitivamente, para o sentido da gratidão. E aí, sim, o
destino não sorri para essa pessoa. Sempre devemos buscar algo para sermos
gratos aos nossos pais e não é tão difícil assim. Eu, por exemplo, tenho uma
mãe que era uma caninana em suas determinações, mas minha mãe é daquela
qualidade de mãe que, quando foi preciso, literalmente, tirou da boca para
alimentar os filhos. Nada que eu faça será suficiente para demonstrar o quanto
lhe sou grato. É dívida impagável! Hoje vendo ela ali, velhinha, já totalmente
dependente, me vem à mente quão guerreira ela foi e quão bela foi sua luta de
mãe (como sou grato à minha pequenina mãe!). Meu pai falhou muito, pois gastava
seus parcos recursos com bebidas e vaidades . Nunca, porém, vi meu pai pelo
ângulo crítico e cobrador; pelo contrário eu sempre o vi como um pai bondoso,
sempre disposto a ouvir, pacientemente, minhas tolices juvenis e a me dar o
melhor conselho possível. Ainda me recordo de seu olhar tristonho a denunciar
sua auto-decepção por não ter conseguido dar à família uma condição de vida
melhor. Tenho por meu pai um misto de admiração e pena, vez que era um sábio
que falhou! Mas meu pai me legou algo que eu não teria de onde tirar: a paixão
pelo conhecimento! E, se fosse apenas isso, eu já lhe devotaria toda a minha
imensa gratidão. Como lhe sou grato meu querido pai!
Quando vejo um jovem (às vezes
nem assim tão jovem) maltratando e maldizendo seus pais em praça pública,
zombando de suas convicções, de sua religião e de seu jeito de ser, do mundo e
da vida, eu fico num misto de raiva e pena dessas pobres almas. Aí me vem
aquela máxima, que adaptada diz assim: “o jovem não lava suas cuecas, não paga
suas contas, não arruma seu quarto, mas quer dar lições a seus pais e reformar
o mundo”. E tudo isso feito com aquele ar de superioridade ignorante, disfarce
óbvio dos jovens inseguros.
Novamente recorro a meu mestre
Olavo de Carvalho. Diz ele que nem sempre é possível uma proximidade extrema
com os pais. As pessoas são diferentes e o filho tem o direito de tomar suas
decisões e escolher seus caminhos e muitas vezes isso se torna um confronto
diário com os pais. Nesses casos, uma distância prudente e respeitosa deve ser
tomada. Nunca para detonar os pais, mas para preservar as estradas. Não se pode
olvidar que o quinto mandamento de
Deus diz: “honrar pai e mãe”. Não diz
obedecer, não diz paparicar. Diz “honrar!” (pense aí você com seus botões: para honrar seus pais você não precisa obedecê-los, muito menos adulá-los - honrar implica uma atitude de outra ordem). Ora, como um ingrato detrator de seus próprios pais poderia os estar
honrando? Há na psicologia junguiana uma compreensão dessa natureza. Diz o
grande psicólogo suíço, ao contrário de seu mestre Freud, que os pais terrenos
são importantes na vida do homem porque são a primeira manifestação concreta do
Arquétipo do Pai Celestial. Ou seja, é
através dos pais terrenos que, psicologicamente, vamos abrindo espaço para o
verdadeiro encontro com Deus. Eis aqui mais uma razão, de cunho psicológico,
para o cultivo da gratidão aos pais.
Fiz referência à gratidão aos pais, porque matriz. Mas a gratidão alcança todos os círculos de amigos, conhecidos, parentes etc etc.
Fiz referência à gratidão aos pais, porque matriz. Mas a gratidão alcança todos os círculos de amigos, conhecidos, parentes etc etc.
Uma vez aberto o caminho para a
compreensão profunda da gratidão, as pessoas nos parecem melhores, a vida nos
parece melhor, o mundo nos parece melhor. Já não vemos somente seu lado
negativo, mas contemplamos toda a beleza de estarmos aqui a observar a
maravilha da existência e aí vem do fundo do coração, em um suspiro: “obrigado,
meu Senhor!”
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